Em um mundo cada vez mais conectado, deixamos um rastro digital que conta a história das nossas atividades. Cada clique, postagem ou interação deixa um fragmento de informação que, quando reunido, revela um panorama detalhado das nossas vidas. Nesse contexto, surge a OSINT, ou “open source intelligence”. Ela é uma abordagem que utiliza fontes abertas e públicas para garimpar esses fragmentos e transformá-los em um quadro completo e significativo.
Neste artigo, você irá entender como a OSINT desvenda um universo de informações ocultas e desempenha um papel crucial na descoberta de informações no ambiente digital. Aproveite a leitura!
Nossa presença no mundo deixa pistas. Por onde quer que a gente passe, nós vamos deixando pistas. Às vezes, essas pistas não são visíveis ou detectáveis com facilidade. Mas estão lá. Os policiais, espiões e (infelizmente) criminosos sabem disso e usam esses indícios para localizar pessoas, confirmar fatos ou preparar ações. Antes que o planeta se tornasse digitalizado, a busca dessas pistas era feita somente no espaço real, no mundo físico: nas ruas, casas, veículos, objetos. Porém, com o enorme processo de digitalização do trabalho, das finanças e até do lazer, as nossas pistas agora também existem no espaço cibernético. Dessa forma, com o domínio das máquinas digitais, as nossas pistas podem ser buscadas lá.
A quantidade de informações expostas na Internet sobre pessoas, empresas e até nós mesmos pode nos surpreender. Uma pesquisa de palavra-chave em buscadores como Google, Bing e outros pode trazer como resposta, imediatamente, alguns milhões de endereços. Muitos são de páginas de divulgação de empresas e pessoas em seus sites, mas é possível localizar também planilhas, apresentações, mapas, diagramas e muitos outros documentos cujos donos pensam tê-los guardado bem. Mas, como sabemos, eles estão expostos.
A atividade de localizar esses endereços e neles coletar, avaliar e analisar os dados e informações publicamente disponíveis ganhou espaço em muitas organizações. Atualmente, ela é conhecida como OSINT, ou “open source intelligence”, a inteligência que opera com fontes abertas ou públicas. Você já deve ter ouvido falar sobre o termo. Porém, as fontes para OSINT são muitas. Além dos buscadores da Internet, podemos acrescentar as redes sociais, os registros públicos existentes no governo e na sociedade em geral e até as notícias. Por causa disso, muitas pessoas preferem não se expor – nem aos seus familiares – ao noticiário ou às redes sociais, por causa do risco que isso pode representar.
É importante notar que quando falamos de inteligência, não se trata apenas de localizar um dado ou uma informação. O material localizado precisa fazer sentido para um planejamento, por exemplo. É preciso que ele tenha um valor acadêmico, político, militar ou de qualquer outra ordem. Somente depois de determinar que esse material faz sentido e tem valor ele pode ser chamado de “informação de inteligência”. Antes disso, as descobertas em open source são consideradas apenas dados brutos. Outra maneira de determinarmos isso é descobrindo “por que esses dados são importantes”.
São muito grandes a quantidade e variedade do que podemos encontrar com OSINT. Se você utiliza ferramentas mais simples, como os buscadores da Internet, conta com os filtros que eles oferecem para refinar as respostas e facilitar a localização de material. Mas existem ferramentas que, além de localizar e refinar os resultados, constroem as correlações entre os itens encontrados e mostram a relevância dessas correlações. O Maltego é uma dessas ferramentas: também é de código aberto e tem os recursos para coletar e correlacionar material. Muitas vezes, a relevância de uma correlação pode ser um indício ou até uma prova daquilo que se busca.
Agora que você já sabe que as técnicas de OSINT já sejam utilizadas por agentes de governos, polícia, forças armadas e até pentesters, é importante ressaltar que a sua adoção ainda não é universal. O ex-policial inglês Mark Rowley, que chefiou a unidade anti-terrorismo do Reino Unido de 2014 a 2018** afirma que a OSINT é frequentemente negligenciada**. Para ele, “em muitas organizações, existem barreiras significativas para a adoção de OSINT, bem como uma falha na adaptação rápida às tecnologias emergentes”.
Apesar disso, a OSINT foi decisiva no esclarecimento de muitos casos, entre os quais a derrubada de um avião da Malaysia Airlines, em 2014, por um míssil lançado por milícias pró-russas em território da Ucrânia. Naquele caso, o coletivo Bellingcat, uma rede global de jornalismo investigativo, fez uma investigação sobre o assunto baseada exclusivamente em OSINT e chegou a essa conclusão, assim como outras organizações internacionais também chegaram, embora utilizando outros meios.
Ainda que você possa achar uma atividade amadora, uma investigação com OSINT pode ser integrada no ciclo “clássico” de inteligência. Dessa forma, envolve a preparação (determinação dos objetivos e principais fontes), coleta (a parte principal), processamento (organização), análise (interpretação e identificação de padrões e outros indícios) e finalmente a entrega do resultado. De modo geral, essa investigação acontece sob a forma de um ou mais relatórios.
Infelizmente, a existência das nossas “pegadas” digitais também desperta o interesse de malfeitores e até de espiões. Eles também buscam em fontes abertas o máximo possível de informações para conhecer melhor os seus alvos e as suas fragilidades. Assim, informações sobre as pessoas obtidas inclusive em vazamentos de dados podem ajudá-los a planejar ataques mais direcionados e sofisticados. Por essa razão, acabam sendo mais eficazes. Você deve saber que são incontáveis os casos já registrados no Brasil e no exterior de golpes e fraudes executados com a ajuda de dados obtidos dessa maneira. Podemos citar os números de telefone, dados pessoais como CPF, nome completo, nomes de genitores, filhos e outros parentes, endereços residenciais e de trabalho. Tudo isso ajuda no planejamento e na execução das ações.

Um caso notável do emprego de OSINT a favor da lei levou à prisão de um cibercriminoso brasileiro, o qual se notabilizou pela quantidade de desfigurações de sites feitas em países do mundo inteiro. Conhecido como “VandaTheGod”, as informações que levaram à sua identificação foram obtidas por um hacker brasileiro que localizou, organizou e correlacionou uma grande quantidade de informações publicadas pelo próprio cibercriminoso – inclusive em redes sociais.
Apesar de que essa tenha sido uma investigação com OSINT “passiva”, existem também investigações da forma “ativa”, nas quais existe interação com o alvo ou pessoa investigada. Mas, nesse caso, existe grande possibilidade de “atribuição”, ou seja, de que o investigador seja descoberto.
Conteúdo institucional da Huge Networks.